Celso Mojola
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Publicado em: 22/12/2011

Trinta anos nesta tarde

Por Celso Mojola

Há trinta anos, numa tarde como esta, concluía eu minha primeira composição: as Variações sobre o Tema do Cravo e a Rosa, para coro misto.  
 
Era setembro de 1981. Eu já havia realizado outras criações anteriormente, mas foram coisas pequenas, sem consistência artística. Trabalhos da juventude que se perderam. Por esse motivo considero as Variações, de fato, o meu verdadeiro Opus 1. Completo, assim, os primeiros trinta anos de minha carreira artística e aproveito o momento para elaborar uma breve reflexão.  
 
Dois sentimentos contraditórios, igualmente intensos, apoderam-se de mim. Não há dúvida de que tanto tempo dedicado à produção e disseminação de música investigativa no Brasil é, por si só, um acontecimento que merece ser registrado. Pude sentir o carinho de colegas, amigos, familiares e discípulos quando se manifestaram a esse respeito por ocasião de um recital comemorativo realizado em setembro passado. Simultaneamente, porém, identifico certa insatisfação por não ter alcançado uma repercussão maior com meu trabalho, que foi pouco além do círculo intelectual e artístico no qual convivo. São vicissitudes da carreira de um compositor brasileiro...  
 
Algumas importantes transformações estéticas foram observadas nesse período. A mais curiosa e inesperada delas diz respeito ao enfraquecimento da noção de vanguarda. Na década de 1980, quando iniciei os estudos universitários, existia em São Paulo uma influência quase hegemônica do serialismo centro-europeu. Eu mesmo era um praticante entusiasmado desse jogo. Com o passar dos anos essa influência foi se enfraquecendo e a visão (no melhor estilo hegeliano) de uma única linha evolutiva que culminaria na vanguarda redentora tornou-se pouco a pouco sem sentido.  
 
A consequência imediata dessa mudança foi uma sensação de liberdade, embasada tecnicamente na multiplicidade de metodologias e sistemas que se tornaram disponíveis. Surge, então, um processo criativo fluente e prazeroso, ao mesmo tempo em que permanece o rigor conquistado nos tempos da prática estritamente serial. Na verdade esse é um posicionamento em sintonia com aspectos fundamentais da cultura brasileira e que me faz recordar as palavras de meu falecido e estimado mestre Almeida Prado: “No momento atual não podemos nos dar ao luxo de sermos apenas seriais.”  
 
Não considero a linhagem dodecafônica-serial um equívoco, algo que caminha para a “lata-do-lixo-da-história”, como já ouvi ser dito com não pouca frequência. Penso exatamente o contrário. A experiência com o rompimento da tonalidade, alcançada por meio de uma prática serial sólida, é FUNDAMENTAL para a formação do artista do século 21. No Brasil, onde a rejeição à pós-tonalidade é grande, a ausência desse tipo de conhecimento gera uma auto-indulgência que está na base de grande parte de nossa fragilidade estética. O que me parece ter sido superado, a partir dos anos 2000, é a ideia de que a vanguarda pós-serial deve permanecer como ÚNICO caminho válido.  
 
Consoante com a atividade criativa exerci e, sigo exercendo, intensa atividade docente que, apesar de baixa remuneração e reconhecimento, sempre me trouxe gratificação espiritual. Os momentos mais felizes de minha vida venho passando entre meus alunos. Tive a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento de muitos deles, desde as dúvidas e os questionamentos iniciais até o desenrolar de grandes carreiras. Vários discípulos alcançam hoje posições de destaque na docência e na composição, e sinto-me recompensado ao identificar, em várias circunstâncias, a presença de ideias e práticas que tiveram origem em meus cursos.  
 
Certamente estes trinta anos não foram só de rosas; houve espinhos, e minhas mãos sangraram inúmeras vezes. Bloqueios criativos, crises pessoais, separações, falta de autoconfiança, decepções profissionais, indiferença... Fantasmas que nos cercam o tempo todo, com os quais temos de conviver se quisermos percorrer um caminho em direção a um norte definido. Tão importante quanto o talento e o estudo é a resiliência do artista - sua capacidade de absorver adversidades e retornar à ação.  
 
Em dois momentos desejei abandonar profissionalmente a música: nas duas ocasiões as tentativas se frustraram e contingências me fizeram voltar mais convicto ao campo musical. À maneira de um personagem de tragédia grega, quanto mais tentava fugir, mais acorrentado ficava. Essa estranha sensação foi superada há algum tempo e hoje não penso mais em sair de minha “prisão” musical. Paradoxalmente, nunca me senti tão livre!  
 
As inovações tecnológicas das últimas décadas são um grande auxílio, e trazem novo impulso para a área musical. Programas de notação e edição musical, internet, sistemas de comunicação imediata são objetos que os mais jovens tratam como um dado da natureza cultural em que vivem desde que nasceram; já minha geração teve de fazer uma transição para o mundo digital, e nunca estamos perfeitamente à vontade nessa nova floresta. Com os recursos advindos da tecnologia, o aprendizado e a prática da música tornam-se mais interessantes. E o mercado profissional ganha importante estímulo inovador.  
 
Há algo de que sinto falta intensamente: um debate intelectual acerca da música como arte. Ronda-nos cada vez mais o perigo de que a atividade musical torne-se exclusivamente um lazer pouco profundo e a diferença entre um concerto sinfônico e um show popular passe a ser apenas a classe social do público. Quanto mais avançamos no estudo científico da música, mais percebemos as infinitas possibilidades de expressão que ela possui, e como vem sendo vilipendiada nas últimas décadas. Cabe a nós, que praticamos e amamos este ofício, não deixar que isso continue a acontecer com tamanha facilidade.

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